Finisterra, o destino final do Caminho de Santiago de Compostela para milhares de peregrinos. E, se muitos são os caminhos para Santiago de Compostela, Finisterra é o único com o ponto de partida em Santiago e que une todos os outros, conduzindo os peregrinos ao marco zero da caminhada.

O fim da terra e muito mais...

Cheio de lendas e rituais, o Caminho segue pela mágica Galicia e tem seu apogeu no Cabo de Finisterra. Ali o pôr do sol reúne uma legião de peregrinos, imersos em introspecção, gratidão e rituais representativos de morte e renascimento. O marco zero, o fim.

Fim de uma jornada e de uma forma de ser, que abre espaço para o renascimento.

Assim como o sol “morre” no horizonte, algo daquele  peregrino também morreu. Como o sol que imerge nas profundezas do mar para ressurgir em um novo amanhecer, ele retornará ao caminho da vida com uma nova luz.

Finisterra, o fim do mundo! Assim pensava-se na Idade Média e, para muitos peregrinos, há um mundo que terminam ali. Algo tem que morrer para que nasça o novo e nessa altura o peregrino já está preparado para este renascimento. Nasce  um novo olhar sobre o mundo.

Pedras Sagradas, Cabo Finistere, Galiza | Eliane e Dinis Por Aí

É assim, quem volta do fim do mundo sempre tem alguma historia para contar e um tanto de fantasia no olhar. E não seria diferente connosco que andamos por aqui e por aí.

Embarca nessa viagem e segue neste post até o fim do mundo.

Tradições muito antigas

Desde a Idade Média, e bem antes, este encontro da terra com o oceano atrai, desperta interesse e é objeto de estudo. Muitos são os mistérios e simbolismo guardados pelo tempo e naquelas Pedras Sagradas que talvez tenham mais relação com o verdadeiro significado da concha, o símbolo do peregrino, que o próprio mar, como prova de ter estado naquele fim do mundo. 

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A origem da concha

Acredita-se que quando os romanos chegaram ao Cabo de Finisterra, encontraram um altar dedicado ao Sol , “Ara Solis”  construído pelos Fenícios. Outros, atribuem a criação do altar aos próprios romanos. Mas, parece ser unanime que quem o destruira, fora o apostolo Santiago.

Pelo que se sabe, a arquitetura do altar seguia padrões gregos e cultos à Deusa da prosperidade, fertilidade e colheitas abundantes, eram realizados nas Pedras Sagradas.

A Vieira, Caminho de Santiago

Com a destruição do altar e construção da igreja de São Guilherme, hoje em ruínas, o culto a Afrodite, teria sido substituída à Nossa Senhora e seu símbolo, a concha, transformada em símbolo dos peregrinos de Santiago.

Sendo assim,  o simbolismo original da concha não seria exatamente o encontro com o mar mas, o culto a Deusa Mãe

Rituais no fim do mundo

A representatividade desse “renascimento” do peregrino passa por alguns rituais que aumenta a conotação mística de Finisterra. Entre eles, o banho no mar e a queima das vestes, são atos imediatos que quem chegava ao fim do mundo. 

Rituais perfeitamente compreensíveis considerando que na Idade Média um peregrino não dispunha de muitas opções para o banho, logo, esse encontro com o mar era providencial. Suas vestes tão pouco deveriam valer muito, pelo odor de tantos dias no corpo.

 

Hoje em dia, o ritual da queima é proibido e desencorajado pelo risco de incêndio que representa, sobre tudo, se considerarmos o número  constante e crescente de peregrinos.

Alguns passos a mais

Do alto da colina um último olhar, na verdade, um “até breve” à aquele ponto que fora, por bastante tempo, a meta a ser alcançada, a Catedral de Santiago de Compostela. 

Deixa-la para trás é verdadeiramente um crescimento, um passo a mais na caminhada da vida. Vista agora de uma outra forma, sob um olhar singular do peregrino que vem de algum outro caminho e, por alguns instantes, relembra o caminhar que ficara para trás.  É hora de um passo a mais na caminhada da vida. 

Uma certa nostalgia e liberdade compõem a mescla de sentimentos.

A primeira etapa, depois do fim.

Uma característica muito peculiar que o Caminho de Finisterra possui é o encontro de peregrinos proveniente dos diversos caminhos. Algo que renova a magia e ajuda a recompor o coração partido com a despedida de alguns companheiros anteriores.

Um novo olhar o move depois de tudo que vivera. É hora de pôr em pratica tudo que aprendera e tornar a aprender coisas novas, como se fosse o início. Descobrir que o caminho nunca acaba mas, é possível percorre-lo de forma leve, mais coesiva e mais humana, que a primeira vez.

Novos companheiros de caminhada

Do Caminho Frances talvez venha o maior número de peregrinos, sobretudo os iniciantes na caminhada. Depois, dos Caminhos de Portugal e de inúmeros caminhos dentro de Espanha.  Todos alinham a passada no mesmo caminho à alguns que iniciam em Santiago sua experiência.

Voltamos a típica rotina. Tirar as botas, duchar-se, abrir o saco cama, lavar e estender roupas. Tudo a tempo de beber uma cerveja com alguém que acabou de conhecer e já partilham histórias, como se fossem velhos amigos de caminhada.

Ao fim da primeira etapa rótulos sobre estilos de peregrinos versos caminho que percorre, deixam de existir. Agora, depois de muitos passos, estão todos no mesmo caminho.

Sinais e escolhas

Em um longo trecho solitário, onde não há bares ou distrações surgem sinais que te impelem a eleger uma direção. Ir direto a Finisterra ou seguir até Muxia e  depois Finisterra?

Os sinais e as escolhas, te acompanham em todos os caminhos.

Dois marcos, lado a lado, direcionando pontos opostos. Em frente, um peregrino que precisa enxergar os sinais no dentro de si.

Por onde ir?

A esta pergunta sempre temos a mesma resposta: “Ouça seu coração!” É ele que sabe dos seus passos e será sempre seu melhor conselheiro. Nós já percorremos os dois caminhos e podemos dizer que são distintos e particulares.

Motivos para seguir por Finisterra

Ao fim da subida que antecede Cee, surge no horizonte o mar.  Presença constante até o fim da terra e a caminho de Muxia.

 

Motivos para seuguir por Muxia - Finisterra

Quem segue por Muxia, tem seu encontro marcado com o mar, apenas na última etapa. O caminho não sofre grandes transformações e ao longo da linha do mar, a vegetação é mais presente que o próprio mar que mostra-se mais na direção oposta. 

Antes do fim

Muitas resoluções são tomadas ao longo do caminho, de tal forma que alguns peregrinos decidem fazer mudanças profundas em suas vidas, ou não…

Como ao longo do Caminho costuma-se abandonar alguns pecados e hábitos, e para o caso da resolução de tornar-se vegetariano, por exemplo, a gastronomia galega é uma prova de fogo ou despedida em grande. 

Entre muitos pratos tradicionais, o Cozido Galego é uma bela opção com carne. Assim como a Galicia está próxima a Portugal e em alguns pontos mesclan-se na cultura, o Cozido Galego muito se   parece muito com o Cozido à Portuguesa, apenas não leva cenouras e não acompanha arroz.

Uma opção de peso para repor as energias do peregrino.

O menu peregrino apresentado na telha, é a forma original  do restaurante “As Pias” apresentar o menu.

Cheiro de mar

Não apenas cheira a mar a última etapa, ele domina a paisagem e uma onda de alegria e entusiasmo conduz o passo.

O fim está próximo e tanto o coração como a cabeça estão eufóricos. O corpo reage diferente do caminho anterior, está mais forte, veio preparado…nada e ninguém é mais como era antes.

É hora de se jogar no mar e lavar a alma pelo feito. Queimar tudo aquilo que não lhe cheirava bem e deixar para trás,   jogar ao vento, as cinzas das dores trazidas no peito.

O ponto zero

Ao passo que a essa altura, só resta eleger o setor e melhor lugar na arquibancada e apreciar o espetáculo do deus Sol. Em conformidade com a lenda, majestoso no horizonte, ele levara as cinzas daquele que um dia fora, para renascer na manhã seguinte, quando a vida continua por um outro caminho.

Para apreciar o espetáculo, o farol de Finisterra é o ponto mais popular. No entanto, próximo às Pedras Salgadas a vista é panorâmica é silenciosa. Enquanto na Praia Mar de Fóra, assiste-se ao espectáculo com os pés da areia.

 Siga as setas do seu coração é acomode-se bem, onde ele te levar. Conheça mais Caminhos de Santiago e não deixe de conhecer o Caminho Português Interior de Santiago e o Caminho Sanabrés que percorremos como parte do nosso caminho até Roma.

Ultreia!

Considerações finais
  • Negreira é o único lugar que dispõe de um multibanco até alcançar Cee.  
  • Albergues municipais não aceitam pagamentos com cartão, por isso é importante ter valores em espécie para pagamentos no caminho.
  • Não esqueça da credencial, sem ela não é possível pernoitar nos albergues municipais.
Veja o mapa do Caminho de Santiago a Finisterra