Percorrer de bicicleta as serras e planícies do interior alentejano por lindas aldeias de casinhas brancas com detalhes azuis ou amarelos e encantadoras igrejinhas pintadas da mesma forma. Onde nos cafés ou à sombra das laranjeiras das pracinhas e uma gente hospitaleira que não economiza sorrisos e boa prosa.

Os rebanhos pelos montes, os pastores à sombra dos chaparros que pintam a paisagem castanha, a boa gastronomia, o vinho, tudo faz parte deste encanto que é o Alentejo.

| O que é | Viagem de bicicleta
| Onde fica | Alentejo – Portugal
| Quando fomos | Verão 2018
| O que fazer | Conhecer as igrejas, lavadouros municipais, tomar uma mini com os locais. 
| O que não pode faltar| Cantil d’agua

Dá-me uma pinguinha d’agua dessa que eu oiço a correr. Quero molhar a garganta, quero molhar a garganta…

–Música tradicional alentejana

 

Alentejo, próximo ao litoral
Paisagens do Alentejo
Chaparro
Por do sol no Alentejo

Viagem de bicicleta do litoral ao interior do Alentejo

Das lindas praias do litoral em Vila Nova de Santo André, partimos para uma viagem de bicicleta pelo interior do Alentejo por uma vasta plantação de pinheiros-bravos, em direção ao norte passando pelo cais de palafitas na Carrasqueira, numa constante linha plana, onde as vistas dão lugar aos pinheiros-mansos até alcançarmos Alcácer do Sal.

Dali seguem-se alguns quilómetros entre os arrozais que se vê desde à Carrasqueira, passando a uma paisagem típica do Alentejo. Longas planícies com alguns cabeços e chaparros a mistura. A cada decida, aproveitávamos para ganharmos velocidade tentando que não nos custasse muito às subidas.

Cabeços e mais cabeços vão se multiplicando ao ponto de parecerem barreiras, como são chamados nesta região. Para quem não conhece, cabeços são cumes de forma redonda o que representa uma constante de subidas e descidas.

O calor aumentava na mesma proporção das subidas tornando os átrios das branquinhas igrejas ainda mais convidativos para uma pausa e uma mais-valia, ajudando a refrescar e recobrar o fôlego.

As etapas

Todos os dias vivíamos o mesmo dilema, decididos a sair o mais cedo possível, antes do sol começar a queimar muito, enquanto levantávamos o acampamento e preparávamos um pequeno-almoço (café da manhã) o sol despertava e subia no céu, com a disposição e fervor desde os seus primeiros raios que já nos pareciam de meio dia. 

Este trajeto ficou marcado pela vaga de calor que nos apanhou em pleno Alentejo, temperaturas em torno de 38º onde as poucas aragens que nos tocavam, eram ainda mais quente que o calor que sentimos.

O plano inicial era percorrer os 300 km até o Tejo em 3 ou 4 dias. Mas, tivemos que reduzir as etapas, concluindo-as em 6 dias. Todas foram programadas de forma que pudéssemos pernoitarmos em parques de campismos, com execução de Ponte de Sor. 

O trajeto que percorremos pode ser visto no mapa que continuamos a atualizado, pois seguimos em uma grande volta pela Europa com intenção de percorrermos os países em volta do Mediterrâneo.

Dá-me uma pinguinha d'agua!

Foram dias que consumimos muitos litros de água, refrigerantes e qualquer liquido que nos aparecesse. Os termómetros registaram 38º, mas a sensação térmica era muito superior a isto. Nunca a moda alentejana fez tanto sentido, como nestes dias que atravessamos a região, em meio a uma vaga de calor. Até mesmo os equipamentos eletrónicos colapsaram com as altas temperaturas.

O calor, é um grande desafio para se percorrer esta região em pleno verão. O que salva e aumenta o encanto dessa aventura, além das sombras do chaparros a olhar os rebanhos como os pastores alentejanos, são os lavadouros públicos que refrescam até a alma e permitem continuar a pedalada. Entre um cumprimento e outro da gente que acha graça uma bicicleta de dois lugares e,  sempre a perguntar onde está o motor para enfrentar as duras subidas sob calor intenso. 

Logo nos indicam o caminho para o mais próximo lavadouro publico seguido da informação que era quase uma recomendação

– Podem se banhar!

E isso nos soava como uma doce resposta ao cante, lembrando e cantarolado, entre uma e outra pedalada.

Se no início esses mergulhos nos pareciam uma travessura, logo caracterizou-se como uma necessidade e passou a ser uma grande alegria e bem-estar na companhia das gentes das aldeias a papear e achar graça desses dois pedalando em uma só bicicleta, Por Aí.

 

Refrescar na fonte
Água da Fonte

“Dá-me um pinguinha d’agua” faz parte do repertório de uma das mais fortes tradições do Alentejo, o cante alentejano. Em forma de coral homens e mulheres cantam aquilo  que vai na alma, a melancolia, as saudades, o amor, as vontades e as recordações da terra onde se nasceu e todos os sentimentos que com ela segue. Considerado Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO diz-se que o canto ouve-se e entranha-se, algumas pedaladas por estas terras e a moda da pinguinha d’agua fez-nos logo todo o sentido. 

 

A gastronomia

Um dos bons motivos de se viajar é sem dúvida, desfrutar da gastronomia dos lugares que passamos.

Migas à alentejana, carne de porco preto, arroz de lingueirão (junto ao litoral), sericaia, são alguns dos deliciosos pratos a serem saboreados no Alentejo. Acompanhado do bom vinho produzido na região, são motivos suficientes para valer a viagem. 

É preciso repor as energias e não só a do corpo. É em torno da mesa que os sorrisos, as boas conversas e por vezes, a cantoria corre solta ajudando a revigorar a alma.

Na Carrasqueira o arroz de lingueirão forneceu energia para continuarmos a pedalada. Mas, Montemor-o-novo exige um pouco mais de vigor nesta reposição e no fim de uma grande descida há o restaurante A Ribeira que com cantoria o Sr. Carlos nos faz pagar a conta rindo. 

Um verdadeiro espetáculo de simpatia e melodia, imperdível.

No encontro com o Tejo, muda-se a forma de se preparar as migas assim como a região e permanece o porco preto, entre outras especialidades. No restaurante O bigode, o Sr José nos serviu uma bela porção de Assalhão, uma parte do cachaço do porco preto a se repetir.

Um brinde com seu licor especial, selou com alegria nossa travessia e encontros que falaremos melhor no próximo post. 

Migas à Alentejana
Arroz de Lingueirão
Sericaria, sobremesa Alentejana - Restaurante A Ribeira (Montemor-o-novo)
Assalão e Migas do Ribatejo, Restaurante O Bigode
Por do sol em Avis, ALENTEJO

Veja no mapa por onde passamos e siga a rota completa de nossa travessia pela Europa.