O Caminho Sanabrés da Via de la Plata, tem seu início ao Norte de Zamora, na região da Sanabria. Uma variante do caminho Via de la Plata que segue através das províncias de Ourence e Corunha e encontra o Caminho Português Interior de Santiago na cidade de Verín, Galicia. Foi a partir deste encontro que seguimos as setas amarelas até Santiago de Compostela, vindos de Portugal em nossa bicicleta tandem.

Entrando no reino da magia.

Chegar a Galicia é entrar em um reino mágico onde a natureza impera e os sentidos são apurados. É impossível sair indiferente da região, aos encantos da natureza, das pessoas e da gastronomia local.

Sob o sons das gaitas de fole adentramos uma região cheia de magia e encantos, a Galicia. 

Para quem vem do Caminho Português Interior de Santiago, a primeira etapa no Caminho Sanabrés começa subindo ao Castelo de Monterrei. O caminho real com pedras largas está logo à porta do albergue municipal em Verín. O Castelo é uma fortaleza-palácio medieval, localizada no alto de uma colina com vista para o vale do rio Tâmega e é uma das mais preservadas da Galicia.

Caminho Sanabres, Galicia, Eliane e Dinis Por Aí

Logo a seguir ao castelo, é preciso decidir em qual direção seguir o caminho, Laza ou Traseiras.

Nós seguimos por Laza, desfrutando de uma etapa com lindas paisagens e a constante companhia do rio Tâmega. Uma incrível subida quase conclui a etapa em Albergaria mas, o encontro com peregrinos da Via de la Plata, ajuda a reavivar as forças.

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Caminho Sanabrés de Santiago de Compostela
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Los Cigarrones”, personagens importantes do carnaval de Verín, é uma das figuras entre muitos símbolos característicos da região, que se vai avistando pelo caminho.

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Conchas de diversos peregrinos, decoram um bar no ponto de encontro de peregrinos do Caminho Sanabrés e  Via de la Prata. 

Uma tradição de família, Sra Carmiña

Sete quilómetros depois de Albergaria e muito esforço acumulado, está Vilar de Barrio, onde vive uma doce senhora, a senhora Carmiña.

A fome dominava os sentidos, era um dia de domingo e todas as portas estavam fechadas. Na casa de fachada simples com uma bem talhada placa em madeira escrita “Casa Carmiña, Fundada em 1932”, a porta estava fechada como as outras. Talvez a tristeza de nosso olhar tenha sido captado através das vidraças daquela janela e, quando já íamos embora, a porta se abriu. Um largo sorriso de uma figura pequenina emergia sob uma luz que não se sabe bem se vinha do sol ou daquele interior. Uma senhora que talvez esteja entre 72 e 75 anos, perguntou-nos: “O que querem?” nossa resposta foi tão espontânea e natural como seus gestos nos convidava, “Comer, temos fome”. Dando-nos passagem e convidando-nos a entrar, disse-nos: “Eu vos preparo algo para comer” Deste instante e por todo o tempo, não tínhamos mais palavras, estávamos sob um encanto, uma magia… algo como, de familia.

O salão preservava uma alma. No antigo bar/restaurante, cadeiras, mesas e toda uma decoração herdada, fora mantida exatamente como deixara seus pais, com um acréscimo de uma Compostela emoldurada do Caminho percorrido em partes no período de dois anos pela senhora.

Serviu-nos queijo, choriço, pão. Depois uma sopa, ovos estrelados com carne, acompanhado de vinho local e uma cerveja para o Dinis. Sentou-se em uma cadeira a observar o movimento da rua, por uma brecha estreita, sob a luz do entardecer. Enquanto nós, observávamos encantados a sua própria luz.

Por vezes as portas estão fechadas quando você mais precisa e alguém te enxerga atravéz  de uma vidraça gradeada. Daí então, surge das sombras um sorriso que te abre a porta para alimentar a alma.

Filha única e solteira a senhora Carmiña dedicou toda a vida à casa que herdara, com especial atenção aos peregrinos. Uma atividade também herdada dos pais que os acolhiam e alimentava-os, desde quando por ali não havia albergues. E é este o motivo que a impede de se aposentar, os peregrinos.

Desta forma, conquistou e coleciona muitas amizades no mundo todo, sem nunca ter saído das redondezas do seu café. Talvez a senhora Carmiña conheça bem a Galicia mas, a Espanha já lhe parece longe demais para ir.

Senhora Carmiña segue nos corações de cada peregrino que por ali passa e tem com ela o privilégio de  alguns instantes de prosa, verso e poesia que só a simplicidade alcança.

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O Caminho Sanabrés, a pé e de bicicleta

Percorremos o Caminho Sanabrés em uma bicicleta tandem, sobre um terreno agradável para os amantes do ciclismo de BTT e caminhantes.

Algumas elevações e eventuais trechos pedregosos, pode exigir uma caminhada em companhia da bicicleta para quem pedala. Mas, em sua maioria é fácil de se percorrer pedalando ou a pé.  

Um caminho entre bosques, cheio de carvalhos e castanheiros, onde a sombra é uma constante carregado de uma magia típica da Galicia. Território das bruxas, reino de sapos e corujas.

Termas de Ourense, o descanso do peregrino

A saída de Vilar do Barrio segue por uma zona rural plana, uma subida conduz ao alto de uma pedreira de onde se contempla  a paisagem, antes da descida de terreno com pedras irregulares que exigem atenção. A sequência do percurso até Ourense é praticamente todo por estrada e não apresenta dificuldades.

Em Ourense há uma maior presença de peregrinos, pois muitos a elegem como ponto de partida a Santiago de Compostela ou talvez motivado pelas belas termas naturais que Ourense oferece.

Às margens do Rio Minho, Ourense possui termas naturais rodeada de verde e são um convite irrecusável ao banho. Chegar a tempo de desfrutar de alguns momentos relaxastes em suas águas quentes ou retardar um pouco a saída é uma alternativa revigorante para muitos peregrinos. O acesso às termas segue pela ciclovia e acesso pedonal pela Rota Termal do Minho do Parque de Antena.

Um canto mágico

As temperaturas das águas termais são um verdadeiro “frescor” parar encarar a subida de 20% que aguarda o peregrino com a tranquiliade de quem sabe o quanto ele vai sofrer para vence-la. 

Mas, estamos na Galicia e os verdes bosques acolhe, refresca e  conduz os passos, neste caso, até Oseira. Uma pequeníssima aldeia entre altas colinas que abriga um mosteiro muito especial, o Mosteiro de Santa Maria de Oseira é um grande e antigo edifício construída entre 1200 e 1239, considerado um marco da arquitetura românica na península espanhola. Ali, um grande salão fora convertido em um dormitório compartilhado para os peregrinos e a arquitetura em pedra exigem um dos itens fundamentais do peregrino, o saco de dormir. Para comer, há dois pequenos cafés que, solicitando com a maior brevidade possível, podem lhe preparar uma refeição simples.

Um momento muito especial pode ser vivido pelos interessados, os monges da Ordem Cisterciense permitem aos peregrinos participar da liturgia realizada em canto gregoriano.

Uma experiência marcante que   ainda ecoa na mente e reaviva em um amanhecer cheio de neblina, visto do alto da colina, enquanto se aprecia o dissipar das nuvens sobre o edifico e a luz do sol passa por entre as folhas.

Alguns passos antes do fim

Você pode até caminhar em  silêncio mas, é impossível ir embora em silêncio.

Qualquer caminho pode apresentar etapas duras, alguns trechos impossíveis de seguir, pedras lisas, grandes e irregulares que pode alterar o passo, ou talvez, impelir a usar forças que nem eram conhecidas, e vence-los.

Sombras podem significar frescor quando vem da natureza de uma árvore, criar formas peculiares ou magia quando a luz incide sobre as folhas ou emolduram o caminho. Ou, quem sabe, uma grande quantidade de objetos presos a uma tela de proteção sobre uma linha de comboio desperte e altere o seu silêncio.

Os caminhos são repletos de sinais e simbolismos e nos últimos passos do Caminho Sanabrés um fato tem uma representatividade profunda para o peregrino. A poucos passos da Catedral de Santiago, uma linha evidencia uma dura realidade e faz-nos refletir sobre o que vive e o que morre, sobre a divisão entre o seu antes, o agora e o depois de qualquer caminho e sobretudo, nos alerta sobre o perigo de se distrair.

O acidente de Alvia

Em 2013, houve um descarrilamento e morreram 80 pessoas que estavam a bordo. O acidente aconteceu na véspera do Dia Nacional da Galiza, dia do Apóstolo Santiago. O número de vítimas, foi o terceiro mais grave acidente da história ferroviária em Espanha e a Comissão de Investigação de Acidentes Ferroviários concluiu que o acidente ocorreu, por uma distração…

Na grade de proteção, sobre o local, há objetos, mensagens  e alguns peregrinos acendem velas em memória das vitimas.

Emoção, chegamos a Santiago.

Não importa quantas vezes estivemos aqui, de qual caminho estejamos chegando. Avistar a Catedral de Santiago é sempre um momento que dá um nó na garganta, acelera o coração, alarga o sorriso e marejas as vistas. No caminho  Sanabrés a catedral é avistada, quase que de forma frontal,  ainda a uns 2,5 km antes da Praça do Obradoiro. Justo ponto onde dizem que a Rainha Santa Isabel, a Rainha Peregrina,  teria descido do cavalo e seguido caminhando. 

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A partir deste ponto o caminhar segue embalado por emoções, memórias e gratidão. O ápice se dá na praça onde alguns dançam, outros pulam, se jogam ao chão, erguem suas mochilas ou bicicletas e lágrimas rolam em muitas faces. Como velhos amigos os companheiros de caminhada se abraçam ou simplesmente sorriem,  sem nenhum medo de ser feliz.

Caminho Sanabres, Praça do Obradoiro

Chegamos ao mágico local de peregrinação que atraem pessoas de todo o mundo. Pessoas que partem de diversos pontos, seguindo seus corações, setas amarelas, superando dores e medos, enquanto visitam porões interiores, limpando e reorganizando suas ideias em uma perturbadora e libertadora, introspecção e fé.

Veja o mapa do Caminho Sanabrés em continuação do Caminho de Português Interior de Santiago.