A Via Francigena é uma rota de peregrinação a Roma, com início em Canterbury, na Inglaterra e registrada num diário pelo arcebispo Sigerico, no final do século X. Tornando-se então, o mais antigo relato de viagem de uma das mais importantes vias de comunicação europeias. Por isso a Via Francigena é também conhecida como “O Itinerário do Sigerico”.
Além disso, a via faz parte dos Caminhos de Santiago, sendo o primeiro ou último percurso histórico da jornada em direção a Santiago ou Roma, respectivamente.

uma viagem entre mitos e lendas

Percorrer a Via Francigena é, antes de tudo, uma oportunidade de viajar no tempo desvendando símbolos milenares, mergulhados em paisagens e cores de telas renascentistas.
Embora Sarzana, ponto de encontro entre a Via e os caminhos provenientes da Espanha, e Acqua Pendente sejam anfitriãs respeitáveis na chegada do peregrino à Toscana, é Lucca que guarda o símbolo dos mistérios das peregrinações. Isso porque, protegida por muralhas medievais intactas, a cidade está intimamente ligada à Via Francigena. Mas apesar das suas 100 igrejas bastaria os tesouros da catedral de São Martinho, para já valer a visita. Além do que, é nela que está o símbolo mistérioso a ser desvendado pelo peregrino. No entanto, deixemos esse assunto para mais adiante.

Porque primeiro observemos a escultura na fachada sobre o Sonho de São Martinho, ele representa a conversão do jovem cavaleiro de família pagã em santo. Em seguida, já no interior da catedral está um dos mais significativos tesouros do cristianismo, a Face Santa. De acordo com a lenda, essa escultura em madeira, retrataria a verdadeira face de Jesus e teria sido esculpida por Nicodemos. Contudo, é preciso se contentar em vê-la protegida por grades pois, esse crucifixo citado por Dante na Divina Comédia, só pode ser apreciado fora delas na época do mais importante festival da cidade.

VIa Francigena de bicicleta tandem, estrada romana
O labirinto e Dédalo

Agora, de volta ao exterior da catedral e em um de seus pilares está um poderoso mistério, representativo e à espera de ser desvendado pelo peregrino, o Labirinto de Dédalo. Porém, se por um lado há dúvidas sobre a origem da Face Santa, por outro não há consenso sobre como, ou quem, é o responsável por ele ali estar. Todavia, as maiores suspeitas recaem sobre os Cavaleiros Templários. De forma que a única certeza sobre sua origem está nas inscrições, ao lado da figura que diz:

Hic Quem / Creticus / Edit Deda – / Lus Est / Laberint / Hus Deq(U)- / O Nullu – / S Vader – / E Quivit / Qui Fuit / Intus / Ni These – / Us Grat – / Is Adrian – / E Stami- / Ne Iutus

“Este é o labirinto construído De acordo com a lenda, a escultura retrataria a verdadeira face de Jesus e teria sido esculpida por Nicodemos.por Dédalo, do qual ninguém que entrou poderia sair, exceto Teseu, ajudado pelo fio de Ariadne”

Em outras palavras, e de acordo com a lenda, o centro do labirinto construído por Dedalus, era habitado por um ser monstruoso e ninguém escapava dele. Menos, Teseu que sobreviveu a incursão, derrotou o Minotauro e depois encontrou a saída, graças ao fio de Ariadne.

Labirinto de Dedalus, Via Francigena
O labirinto e o peregrino

Dessa forma, esse símbolo ancestral presente em diversas culturas, pode ser lido como um percurso ao interior da psique e da alma humana. Numa viagem onde o destino é o centro, o ponto que equilibra.
Por isso, não é apenas por estar na catedral de Lucca que o labirinto é um dos símbolos da Via Francigena. Afinal, ele simboliza a jornada interior que visa uma reconecção com um Ser maior. Além de nos dizer que trata-se de uma jornada sem curvas erradas, pois as idas e vindas conduzem à sabedoria e verdades espirituais.

Ou seja, ele é a representação de um caminho interior a uma espécie de santuário, onde expressa-se o que há de mais misterioso e sagrado da alma. Uma alma que fora da multidão dos desejos, encontra-se. E em estado de graça, reconecta-se com algo maior, neste que sería semelhante a um espaço-templo e onde não há separação entre o homem e Deus.
Ao mesmo tempo, se por um lado há medo no início da caminhada. Por outro, há um despertar ao longo do caminho que torna tudo significativo. Pois o peregrino aprende a interpretar os símbolos do caminho. E por fim, descobre que a única forma de sair do labirinto é o amor, simbolizado pelo fio de Ariadne.

Ou seja, a grande questão não é entrar no labirinto, e sim, sair dele.

o caminho a roma

Então, seguindo as indicações, percorrermos aldeias e cidades de ruelas estreitas em tons de ocre. Verdadeiros museus a céu aberto que preserva uma arquitetura medieval, graças a terrível peste negra.

Como por exemplo Siena e sua linda Fonte de Gaia da época renascentista, evocando as virtudes humanas e sua a catedral, um impressionante tesouro arquitectónico cheio de simbolismo.

Por outro lado, San Gimignano e Rádicofani faz-nos lembrar que desfrutar de belas paisagens, é um exercício exigente. Ainda mais, quando se trata de percorrer terras medievais de importante território militar. Sobretudo, num percurso feito por um membro do clero, naturalmente o descanso de cada etapa fica no alto de uma subida, que de tão íngreme, mais parece tocar o céu. Mas, ao contrário do arcebispo que viajava sobre uma mula, o peregrino tem que alcançá-lo com todas as forças de sua fragilidade humana.

Pois é, como diz o dito popular no nordeste do Brasil “rapadura é doce mas não é mole não”. Afinal, estamos na Toscana percorrendo paisagens dignas de cartões postais, emolduradas por Ciprestes, o que não deve ser por acaso. Pois se com os primeiros raios de luz esses lugares são tão belos, o mesmo não parece ser ao entardecer quando o corpo já está cansado da jornada. Momentos que exigem o uso do poder que há na motivação interior, além de acreditar, definitivamente, que há vida após a morte. Considerando que ao cair na cama o corpo tem a certeza da morte, e que seguir adiante só é possível se houver renascimento. Mas, essa é uma jornada diária e íntima do peregrino que há muito percorre o caminho.

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chegar ao centro

Diante de tanta superação e com o olhar mais apurado que quando iniciará a jornada, o peregrino já se encontra muito próximo de Roma, o grande centro sagrado do cristianismo. Nessa altura é a natureza que conduz os passos até se alcançar o monstro devorador e insaciável da civilização que exige sacrifícios. Nessa hora, é preciso lembrar as lição do labirinto, que diz que só é possível vencê-lo com a espada mágica e o poderoso laço, invisível e imperceptível, que nos liga a cada ser, aquele de Ariadne, o amor.

Por fim, compreendemos que o centro vive em todo ser humano, e depois de muitas e idas e vindas, sob a pintura de Michelangelo, compreendemos que quando reconectamos com a essência divina, despertamos do barro e nos tornamos humanos, em equilíbrio, nos pomos de pé e dessa forma, tocamos o dedo de Deus.

…o labirinto é totalmente conhecido. Temos apenas de seguir o fio da trilha do herói. E ali onde pensávamos encontrar uma abominação, encontraremos uma divindade; onde pensávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos; onde pensávamos viajar para o exterior, atingiremos o centro da nossa própria existência; e onde pensávamos estar sozinhos, estaremos com o mundo inteiro.”

O Herói de Mil Faces – joseph Campbel
Pintura de Michelangelo, Sistine Chapel (Capilla Sixtina)
hospedagem na via francigena

No que diz respeito a hospedagem, é importante saber que Via Francigena difere, significativamente, dos Caminhos de Santiago em Espanha. Pois embora exista uma rede de acolhimento peregrino é importante ter em conta que, de forma geral, os valores superam os praticados em caminhos mais percorridos ou com menor apelo turístico, sobretudo, na região da Toscana. Nesse sentido, além dos alojamentos particulares e turísticos, há o acolhimento peregrino em paróquias e albergues.

Quanto à política de contacto prévio e verificação de disponibilidade, segue-se de forma idêntica a caminhos como, Via Tolosana/Caminho de Arles, Vía Aurélia e Via D’ella Costa.

buen camino!

Via Francigena de bicicleta

Assista o vídeo
da
Via Francigena

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