O Caminho de Santiago tem, por si só, a natureza da introspeção, percorre-lo no inverno é acentua-la a um nível muito especial. Inicia-lo na região de Aragão, exige que o peregrino reúna prudência, persistência, consciência e parcimónia, sobre tudo, na primeira etapa.

Ainda há vida em seus sonhos…
Somport, Pirineu Aragon
Dia 2 - De Castillo de Jaca à Arrés.4
Dia 3 - De Arrés à Ruesta, uma cidade abandonada.6 - cópia

| O que é | Caminhada de longa distância 
| Onde fica| Reino de Aragão, Espanha
| Quanto tempo | 6 dias – 165 km
| Porque ir | Um itinerário cultural e religioso, com forte apelo introspetivo e grande visual paisagístico.
| Quando fomos | Inverno/2017

Estávamos em Najera, na região da Rioja já em pleno caminho de Santiago, quando decidimos percorrer parte do caminho, dando início na região de Aragão, por isso chamado Caminho Aragonês.

Puente de La Reina é onde se encontram esses dois caminhos franceses de Santiago, iniciados na fronteira pirineica de Espanha com França. Foi lá que deixamos o carro e seguimos de transporte público à Somport, fronteira aragonesa com a França.  Se tudo corresse bem, percorreríamos as 6 primeiras etapas em pleno inverno europeu.

O frio intenso e parte do caminho coberto por neve, não motiva muitos peregrinos e pode impedir a caminhada. Por isso, as informações normalmente não muito motivadoras, sobre tudo, quanto as possibilidades de hospedagem com muitos albergues fechados.

Enterre seus medos.

|Etapa 1
|Somport – Castiello de Jaca | 23 km

Camino Aragon

A 1.630 metros acima do nível do mar, o Pirineo aragonês registava -15º naquela noite que tivemos sorte em encontrar o Albergue Aisa aberto, éramos os únicos peregrinos em meio a toda aquela neve.

O Pireneu Aragonês é generoso em belíssimas paisagens, mas quem pretende percorrer a rota à Santiago nestas condições, precisa ter em conta o equipamento adequado e estar consciente da pouca visibilidade da sinalização, dado a altura da neve.

A euforia dos grupos de esquiadores, não foi suficiente para quebrar a introspeção do caminho, acentuada pelas condições climáticas e ausência de outros peregrinos. Seguimos nos nossos silêncios, contemplando aquela imensidão branca até Castiello de Jaca, que fica a 8,6 km da cidade de Jaca. Caminhar sobre a neve exige maior esforço e não permite imprimir grande velocidade, algo que é preciso ter em conta porque, neste trecho, há um direcionamento das atenções aos grupos e esquiadores o que torna onerosa e escassa a possibilidade de hospedagem.

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Camino, Aragon, Inverno

continue a viagem…

|Etapa 2
|Castiello de Jaca – Arrés| 34 km

Dia 2 - De Castillo de Jaca à Arrés.3

Baixamos para uma altitude de 800 metros e a neve ficara para trás dando lugar ao gelo estaladiço e o burburinho da água.

Ouvir o canto gregoriano na igreja de Jaca é um bálsamo que aquece a alma para então, seguir até Arrés. Um pequeno e acolhedor povoado que possuíra naquele momento exatamente, 42 habitantes, entre eles, 7 crianças, 3 adolescentes e dois jovens. Curiosidades que as conversas com as gentes da região nos revelam.

O albergue encantador, é fruto do trabalho voluntário e donativos. Ao fim dessa segunda etapa, soube bem aquele ambiente com a atmosfera de acolhimento peregrino.

Iniciar a etapa em Castiello de Jaca, sobretudo em períodos de inverno, torna a variante por San Juan de La Peña impossível.  As possibilidades de hospedagens até Arres fecham para férias, o que implicaria numa etapa extremamente longa, nesta época de dias mais “curtos”.

ARRÉS

percorra os escombros e destape o céu…

|Etapa 3
|Arrés – Ruesta| 28,4 km

Ruesta, cidade abandonada

Algo muito interessante em percorrer estas etapas, é observar a mudança na paisagem. A medida que vai se afastando dos picos, o gelo vai derretendo e alimentando a vida.

Um denso bosque e então, avistam-se as ruínas do que fora uma aldeia, abandonada desde 1959, Ruesta. Ali não há habitantes e quando lá estivemos, também não estavam presentes os hospitaleiros do albergue.

Percorrer escombros de um castelo, ruelas e casas que o verde invade e torna a dar vida, observar a árvore que cresce a porta de uma casa, a trepadeira que envolve os pilares, uma outra árvore que sustenta as paredes daquilo que um dia fora um lar. Tudo isso nos faz pensar em toda aquela gente que por ali sorria, se apaixonava, tinha filhos e sonhava com um futuro que certamente não seria de memórias em escombros. Sobretudo refletimos que, apesar de nós humanos e as nossas histórias, é a natureza que sustenta os nossos pilares e ela sempre se refaz.

Camino Aragon, Ruesta

Não desista, embora o frio queime…

|Etapa 4
|Ruesta – Sanguesa| 22 km

Camino Aragones - Dia 5 Foto 1

Pouco a pouco o caminho vai ganhando vida e cores, por entre muitas retas até Sanguesa. Um percurso que puxa os pensamentos e faz visitar os porões da memória enquanto voam no céus bandos de aves num bailar de simplicidade e beleza.

Com o albergue em Sanguesa fechado e, só restando uma possibilidade de hospedagem no povoado, soubemos que, no dia anterior outro peregrino não havia gozado da mesma sorte e dormira na rua.

Dia 4 - De Ruesta à Sanguesa.4

Mesmo que o sol esteja escondido, e se cale o vento ainda há fogo em sua alma

|Etapa 5
|Sanguesa – Monreal| 27 km

Camino de Santiago Francês por Aragón no Inverno

E quando chove, quando a água mistura-se na terra e faz uma pasta grudenta que dificulta o caminhar? Naturalmente, nos fechamos mais em nós. A paisagem restringe-se a poucos metros e não conseguimos enxergar muito mais que os nossos passos. Não conseguimos ouviu o outro, cuidamos todo o tempo em não escorregar, fechados nas nossas capas de chuva.

E quando unisse a isso rajadas de vento, apertamos as capas e nos fechamos ainda mais, miramos o horizonte de olhos serrados, cheios de medos e dúvidas.

Nem sempre o caminho é fácil. No entanto, é preciso perceber o frescor e a nova vida que traz a chuva e seguir em frente. Porque verdes pastos, só são possíveis em virtude das chuvas.

Temos sempre a escolha de olharmos para a lama ou vibrarmos pelos verdes campos após a chuva.

Camino-Aragon,Sanguesa-à-Monreal
Abra as portas, remova os parafusos…

|Etapa 6
|Monreal – Puente La Reina| 30 km

Puente La Reina

Eis que amanhece um belo dia de sol e a lama que ainda persiste, já não incomoda tanto. Afinal, já não precisamos nos fechar nas nossas capas e podemos apreciar a paisagem, os diferentes tons de verde, a luz que penetra por entre as folhas do bosque e, a vida tem mais cor. Ouve-se mais o coração e ele vibra.  Ouve-se o outro, e não apenas a nós mesmos.

Já ficara para trás muita neve, o gelo já se desfez e a água que parecia amolecer o caminho,  limpara as folhas para que víssemos um mundo um pouco mais colorido e cheio de vida.

São muitas as portas, são muitas as decisões e escolhas ao longo do caminho e da vida, mas não importa o ponto de partida, não importa se o caminho vem por Roncesvalles ou Aragão, quando em Puente La Reina as rotas e os peregrinos se encontram, já haverá feito uma passagem, natural. A “ponte da rainha” possui uma representação símbólica dessa passagem no caminho, o aparecimento de novos valores e a chegada de uma nova consciência. Uma união de dois mundos, o material e o espiritual,  representados pelos círculos refletidos na água, um caminho natural em todos que buscam o caminho.

A parte de cima, a pedra, representa o nosso dia a dia e o seu reflexo no rio representa a espiritualidade, não importa qual tenha sido o seu ponto de partida.

ensaie uma canção…

Os caminhos são assim, abertos, sem fronteiras. Deixa-nos livres e nos sentimos protegidos em meio ao nada. Não acostumados com tamanha liberdade, nos fechamos em nós mesmos e conforme caminhamos, percorremos o nosso interior, visitamos os nossos porões e a assim vamos limpando o pó das recordações, jogando fora algumas tralhas, olhando para outras sem saber porquê as guardamos, outras nem conseguimos mover ou olhar. A medida que vamos remexendo os nossos guardados, aguçamos os nossos sentidos e os primeiros a serem afetados são a visão e audição. Passamos a enxergar e ouvir além de nós mesmos, para depois voltarmos ao início e refazermos todos os passos. Isso nunca acaba, o fim de um caminho é o início de outro, pois, sempre haverá um caminho a ser percorrido.

O Caminho Aragonês” no inverno favorece a introspeção num tom acentuado, devido à caminhada de, pelo menos, seis dias sem muitos peregrinos ou nenhum, além do frio e chuva. A dificuldade de encontrar hospedagem, com algumas só recebendo grupos, unido aos altos valores sobretudo na primeira etapa, exige espírito de superação e parcimónia do peregrino que, talvez tenha que estar preparado para soluções monetárias, esforço físico fazendo etapas mais longas ou portar uma tenda de camping para buscar apoio dos moradores que, autorize-lhe pernoitar em alguma área. Das 6 etapas, só encontramos 2 albergues de peregrinos abertos, além do de Puente La Reina. É um caminho que exige algumas superações em meio a belas paisagens.

Bom caminho! Ainda há muito o que caminhar, não importa qual seja o seu ponto de partida.

Sempre há vida nos sonhos!

Citações do poema “Não desista” de Mario Benedetti.

Veja no mapa, a localização de cada etapa.
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